O desprezo e a Cultura, por Gio Carvalho

O desprezo e a Cultura, por Gio Carvalho

Aprovaram um projeto de lei municipal que visa impedir o uso de escolas p√ļblicas municipais para eventos sem natureza educacional. Acaba afetando eventos culturais e esportivos e centralizando na mão do prefeito a autorização, o que poderia ser decidido pela direção escolar e APMs ou mesmo secretaria própria da Educação. Isso é um descolamento da realidade, uma visão limitada dos espaços p√ļblicos e do potencial de uso comunit√°rio dos espaços escolares, baseado em reclamações de whatsapp e redes sociais que, parece-me, são carentes de fundamento.

A justificativa do autor, para talvez rever o projeto, é ainda pior: "Se atingimos esses projetos culturais, possivelmente faremos uma emenda na lei. Eu não sabia de todos esses eventos que acontecem em Salto. Fizemos a lei, conversamos sobre ela e ninguém se atentou. Só atendemos ao anseio de pais que ficaram horrorizados com o que aconteceu". Ele se refere a um evento esportivo universit√°rio em espec√≠fico.

Pois bem, o que se revela é que vereadores decidem sem conhecer a cidade e sem consultar os setores competentes e interessados. Decidem sentados nos seus gabinetes e no whatsApp. Não vão a campo. Não estudam os √Ęngulos, efeitos, possibilidades e consequ√™ncias de seus projetos. Quando eleitos, passam a representar somente a si próprios e não uma coletividade.

Quando mant√≠nhamos o Fórum Permanente de Cultura, em 2012, havia uma proposta de um circuito de artes e cursos nas escolas para ocupar esses espaços ociosos nos dois dias por semana e atrair gente para se entender como usu√°rio do espaço fora das obrigações formais. Era sobre CULTURA E PERTENCIMENTO. Havia uma diretriz estadual, não lembro se era lei ou decreto, que permitia atividades nas escolas estaduais, para o p√ļblico de nosso interesse, a JUVENTUDE ADOLESCENTE. Chegamos a consultar duas escolas que resistiram à ideia. Dava trabalho e não haveria como pagar horas extras.

Agora pensem, se j√° era dif√≠cil conseguir projetos, embora existam algumas diretorias iluminadas e com senso comunit√°rio elevado, os vereadores decidiram impossibilitar tudo. Porque não gostaram de UM EVENTO.

Necess√°rio repensar os espaços p√ļblicos e parar de demonizar a juventude. Os excessos ocorrem quando se colocam cabrestos no jovem, sem um fundamento razo√°vel e coerente. Quando soltos, destroem as cercas que os limitam. Mas quando mostra que os espaços são deles, que ELES SÃO AS ESCOLAS, o pertencimento faz cuidar. E coisas maravilhosas acontecem.

Vereadores, por favor consultem os conselhos, associações, se informem antes de legislar. PRINCIPALMENTE, REPENSEM AS ESCOLAS. Não deve ser somente um espaço de formatação do jovem, MAS DE PREPARAÇÃO PARA A VIDA em comunidade e desenvolvimento individual para poder contribuir com o todo. Senão mais f√°cil seria militarizar de vez e industrializar os cidadãos para a obedi√™ncia e massa de exploração.

A cidade j√° est√° cheia de c√Ęmeras, seguranças, guardas municipais e pol√≠cias, só falta agora o arame farpado.

Prefeitura de Salto : VETE

______________________________________

GIO CARVALHO é advogado