Sem mito nem monstro...

A busca por alternativas na política brasileira

Sem mito nem monstro...

A inelegibilidade de Bolsonaro revela dois perdedores: as forças da direita, porque perderam a possibilidade de apresentar a ilusão do mito a seus eleitores; e as forças de esquerda, porque perderam a chance de apresentar o monstro para assustar aos eleitores que o temem. Os ju√≠zes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declararam a inelegibilidade, mas não preencherão o desafio que aflorou: formular propostas alternativas e apresentar candidatos que as representem, levantando as bandeiras necess√°rias à construção do Brasil sustent√°vel, democr√°tico, justo, sem corrupção. H√° décadas, as eleições presidenciais t√™m sido entre os candidatos e siglas, sem discussão sobre rumos reais para o pa√≠s. As perguntas eram "como tirar voto do opositor?" e "como trazer voto para seu lado?". Não era "para onde e como liderar o pa√≠s?".

O mito ajudava a atrair, o monstro ajudava a tirar votos. Livre de mito e de monstro, pode-se esperar que a campanha eleitoral tente responder a perguntas substanciais que indiquem para onde levar o Brasil em nosso rumo ao futuro. Interessa saber: como garantir a manutenção do Bolsa Fam√≠lia, apresentando estratégia e prazo para que nenhum brasileiro saud√°vel precise de ajuda para a sobreviv√™ncia de sua fam√≠lia?

Quem apresenta propostas para proteger florestas, ao mesmo tempo em que propõe um plano de metas para aproveitar a janela de oportunidades da nova industrialização, baseada na diversidade e nas possibilidades da economia digital? Quem ser√° capaz de provocar debate de ideias, mantendo abertura respeitosa ao debate com opositores?

Como levar adiante o programa de alfabetização aos 8 anos e também construir um sistema nacional em que toda criança seja bil√≠ngue e todo jovem conclua o ensino médio plenamente alfabetizado para o mundo contempor√Ęneo, dispondo de um of√≠cio profissional para ter emprego e renda? Quem vai denunciar os bloqueios contra pa√≠ses soberanos, mas sem relativizar os autoritarismos que eles pratiquem? Quais candidatos vão nos apresentar o compromisso com gastos sociais e investimentos em infraestrutura sem abrir mão da responsabilidade fiscal e conseguindo equilibrar as contas p√ļblicas? Quem vai aceitar as posições do Poder Judici√°rio de desfazer a Lava Jato, mas vai dizer como vacinar seu governo e o pa√≠s contra a vergonha da corrupção? Como manter o respeito aos direitos humanos, ao mesmo tempo em que pacifica o pa√≠s engolfado h√° décadas em uma violenta guerra civil?

Em 2018, uma decisão jur√≠dica tirou Lula da disputa; em 2026, outra tira Bolsonaro. O Brasil espera que a pol√≠tica assuma a responsabilidade de oferecer alternativas para o eleitor escolher com base na qualidade das propostas, não por ilusão de mitos ou medo de monstros.

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CRISTOVAM BUARQUE é professor emérito da Universidade de Bras√≠lia e membro da Comissão Internacional da Unesco para o Futuro da Educação.