Editorial: Destacar a voz de uma luta diária

Editorial: Destacar a voz de uma luta diária

Mundialmente neste 8 de março é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Em corajoso desafio ao preconceito, à ignor√Ęncia, ao machismo e à maledic√™ncia, esse dia deve ser voltado à reflexão em reconhecer as conquistas sociais, pol√≠ticas e culturais da mulher, e ainda uma oportunidade para chamar atenção sobre a necessidade de impulsionar movimentos em direção à igualdade de direitos e de condições em relação aos homens.

Quase 50 anos se passaram desde que o Dia Internacional da Mulher foi implantado pela Organização das Nações Unidas e mais de um século se passou das manifestações de oper√°rias na Europa cobrando respeito aos seus direitos. Apesar de todos os avanços registrados, ainda vemos muitos desvios a serem resolvidos ou extintos de uma vez por todas. Um deles e o mais preocupante, é a viol√™ncia contra as mulheres, dentro e fora de casa. Se essa luta e esse preconceito antes ocorriam principalmente nas ruas e nos lares, agora a opressão est√° cada vez mais presente também no ambiente online. São muitos os relatos dolorosos que vemos e lemos diariamente.

Relatório atual da ONU Mulheres aponta que 85% delas testemunharam viol√™ncia digital contra outras mulheres e 35% relataram terem sido elas próprias as v√≠timas. O ambiente das redes, criado para comunicação e conexão livres, se tornou um território inóspito. As mulheres são até 27 vezes mais propensas a sofrer abusos online do que os homens. Aqui no Brasil, pelo menos mil crimes contra a honra das mulheres repercutiram nos meios de comunicação entre 2015 e 2017, segundo um estudo da Secretaria da Mulher da C√Ęmara Federal. E em função dessa exposição ao ódio, ao menos 127 meninas e mulheres cometeram suic√≠dios nesse per√≠odo.

A discriminação se origina em h√°bitos culturais e sociais profundamente arraigados, tanto por parte dos homens como das mulheres, que não são simples de modificar. A educação, nas fam√≠lias e nas escolas, os meios de comunicação de massa, o mundo da cultura, a publicidade e a moda são essenciais para deter a reprodução do machismo. Especialmente entre os jovens, onde se observa um recrudescimento das atitudes machistas, violentas e discriminatórias, o trabalho educativo precisa ser muito mais intenso do que vem sendo.

Fazer com todos esses fatores ajam no sentido contr√°rio ao que agiram até agora não é uma tarefa f√°cil, nem que possa ser imposta por decreto: é preciso contar com a colaboração ativa e c√ļmplice da sociedade, algo que só um grande di√°logo social e pol√≠tico pode lograr. Os homens, cuja participação é imprescind√≠vel para pôr fim ao machismo, devem se somar a essa reivindicação, sem medos nem desculpas. E obviamente, também os partidos pol√≠ticos, as organizações sindicais e as associações empresariais t√™m um papel em articular e concretizar esse objetivo.

A igualdade entre homens e mulheres à qual uma sociedade democr√°tica aspira só pode ser obtida a partir da liberdade, individual e coletiva. Sua defesa não é ideológica nem pode ser instrumentalizada: ela faz parte do n√ļcleo de valores que articulam o próprio coração das nossas democracias. Tampouco pode ser rejeitada, ridicularizada ou ignorada. Porque a busca pela igualdade e a busca pela liberdade são sinônimos, uma não faz sentido sem a outra. Lutando pela igualdade das mulheres, conquistaremos nossa liberdade, como pessoas e como sociedade, e daremos valor à nossa democracia.

A hora é de reflexão.