Fotomontagem na capa da Folha de S. Paulo é um atentado ao jornalismo sério, diz ABI

Para a Associação Brasileira de Imprensa foto usada pelo jornal escapa à captura do instante, princípio consagrado do bom fotojornalismo.

Foto by Gabriela Biló

Foto by Gabriela Biló

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em nota, repudiou a capa do jornal Folha de S. Paulo desta quinta-feira, 19, que traz imagem que sugere tiro no peito do presidente Lula, a partir de adulteração da realidade. De acordo com a ABI, a fotomontagem da jornalista Gabriela Biló é um atentado ao jornalismo, pois descarta um dos princípios fundamentais do fotojornalismo: a captura da imagem do instante.

"Técnica de múltipla exposição de imagens na capa da Folha. Um eufemismo, em tempos de pós-verdade, para definir a manipulação da informação. Isso não é jornalismo. Isso é uma perversa adulteração da realidade", destaca a entidade. Veja a nota oficial:


"Como eu já previa, o hate ,veio forte com essa foto do Lula: na foto tem quem veja morte, tem quem veja resistência, só um trincado, tem quem veja um sorriso atrás, o Lula arrumando a gravata. Não vou dizer o que vc tem que ver. Fotojornalismo não feito pra agradar. Minhas fotos são o espelho do meu olhar. Essa só é a forma como eu vejo o mundo. Você pode ter o seu olhar, discordar do meu, tudo bem, o mundo é plural. Para mim, fotojornalismo é arte. Arte pode incomodar e fotojornalismo não é feito para agradar", se defendeu a fotógrafa Gabriela Biló.

"Fotojornalismo não é arte, é fotografia aplicada ao jornalismo", rebate Salomon Cytrynowicz, o Samuca, que foi repórter fotográfico da Veja e professor aposentado de Fotografia e Fotojornalismo da Comunicação da PUC-SP.

"Eu sou do tempo em que se dizia que uma foto vale mais do que mil palavras. Nesse caso, nem mil palavras vão conseguir justificar esse verdadeiro atentado ao jornalismo e ao fotojornalismo. Ao contrário do que tentou explicar a jovem fotógrafa, a sua foto não é um flagrante de uma cena. Lula não estava atrás daquele vidro quebrado. Ou seja, a foto não retrata um momento. É uma montagem. Aquela cena simplesmente não existiu. Sem falar que a foto não tem nenhuma relação direta com o texto da matéria", argumenta o diretor de jornalismo da ABI, Moacyr Oliveira Filho.

"Fotojornalismo não é arte. É o registro fotográfico e jornalístico de um momento real. O que não impede que uma fotojornalística seja uma foto artística pela sua beleza plástica e visual. O que não é o caso. Seria como se um repórter inventasse uma frase e colocasse na boca de seu entrevistado. Ou seja, deixa de ser jornalismo para ser ficção", completa ele.


A historiadora Lilia Schwarcz também criticou a capa da edição impressa da Folha de S. Paulo desta quinta-feira, 19,, cuja foto principal é uma montagem do presidente Lula e uma vidraça perfurada por, aparentemente, um tiro na altura do coração do petista. A matéria ilustrada pela imagem leva o título de 'No foco de Lula, presença militar no Planalto é recorde'. Schwarcz qualificou a montagem de Biló como um "truque nocivo" que ignora o momento histórico, que exige "responsabilidade e ajudar na luta pelo fortalecimento da democracia, contra o golpismo".