Breve explanação sobre a suspensão de novos loteamentos em Salto

A falta de água foi um dos argumentos usados para a adoção desse decreto. Isso, na verdade é fakenews.

Breve explanação sobre a suspensão de novos loteamentos em Salto

Um sistema de abastecimento de √°gua consiste no conjunto de obras, equipamentos e servi√ßos com o objetivo de levar √°gua pot√°vel para uso no consumo doméstico, ind√ļstria, servi√ßo p√ļblico, entre outros. Um sistema de abastecimento de √°gua é formado por diversos setores, sendo eles: Manancial; Capta√ß√£o; Adu√ß√£o; Tratamento; Reservatório e Rede de distribui√ß√£o.

Vamos entender o que é cada uma delas?

Um MANANCIAL nada mais é do que a fonte onde se retira a √°gua bruta para abastecimento da cidade. Aqui em Salto temos tr√™s manaciais em uso: o principal, Ribeir√£o Piray (cuja outorga permite um m√°ximo de bombeamento de 300 litros/seg. segundo ilustra√ß√£o abaixo do AresPCJ ou 400 litros/seg. segundo o DAEE - mas isso n√£o faz diferen√ßa nessa an√°lise) é respons√°vel por 80% do abastecimento da cidade; o manacial da Fazenda Concei√ß√£o (que fornece, por gravidade, 50 litros por segundo; completa o sistema Piray/Concei√ß√£o) e por √ļltimo o ribeir√£o Buru (cuja outorga é de 120 litros por segundo, mas o bombeamento chega a um m√°ximo de 80 litros/seg.). Uma ressalva aqui: se n√£o houver procura de novos mananciais, no futuro, certamente faltar√° √°gua na cidade. Mas por hora n√£o.


A CAPTA√á√ÉO consiste nos equipamentos e instala√ß√Ķes que retiram a √°gua do manancial e a joga na ADU√á√ÉO, que é a tubula√ß√£o, normalmente sem varia√ß√Ķes de di√Ęmetro, que liga a capta√ß√£o à esta√ß√£o de tratamento de √°gua. Outra ressalva aqui: as linhas de adu√ß√£o s√£o antigas e obsoletas. Essa etapa pode funcionar de duas formas: por gravidade ou por bombeamento até o TRATAMENTO da √°gua (em Salto, as ETA"s Bela Vista e Jo√£o Jabour). As esta√ß√Ķes de tratamentos existentes precisam de recupera√ß√£o e moderniza√ß√£o. Os RESERVATÓRIOS, tem como finalidade o armazenamento da √°gua tratada e seu objetivo é atender as demandas de emerg√™ncia, manter uma press√£o constante na rede e suportar a varia√ß√£o de consumo. Essa varia√ß√£o acontece de acordo com os h√°bitos da comunidade, do clima e até mesmo da qualidade da √°gua. Falta muita reserva√ß√£o de √°gua em Salto, hoje operamos no limite.

Por fim, chegamos à REDE DE DISTRIBUI√á√ÉO, √ļltimo setor do sistema que leva a √°gua dos reservatórios para as resid√™ncias dos consumidores.


Somando-se ent√£o o volume de √°gua tratada das duas esta√ß√Ķes de tratamento de √°gua aqui em Salto (ETA"s Bela Vista e Jo√£o Jabour) teremos o volume aproximado 1 bilh√£o de litros, que é jogado na rede de distribui√ß√£o mensalmente. Em paralelo, temos o volume de √°gua tratada que é faturado mensalmente pelo SAAE Salto. Esse volume gira em torno de 700 milh√Ķes de litros de √°gua consumida. Aqui j√° mensuramos uma perda de 300 milh√Ķes de litros de √°gua tratada por m√™s somente na rede de distribui√ß√£o. Isso est√° dentro da normalidade? Acho que poderia e deveria ser minimizada.

Isso tudo para explicar que é necess√°rio um estudo bem amplo e técnico para determinar que a culpa da FALTA DE ÁGUA recaia apenas sobre o setor imobili√°rio da cidade. Se levarmos em conta a incompet√™ncia da falta de investimentos no setor nos √ļltimos 25 anos, j√° teremos parte dessa resposta. O decreto n¬ļ 111, de 13 de abril de 2021, suspendeu pelo per√≠odo de 180 (cento e oitenta) dias, os atos administrativos relativos ao processamento e aprova√ß√£o de projetos de empreendimentos imobili√°rios, que impliquem na constru√ß√£o de prédios ou implanta√ß√£o de loteamentos em Salto. Devido a falta de planejamento, o setor imobili√°rio pode ter contribu√≠do para tanto, mas a culpa pela falta de √°gua nas torneiras dos consumidores merece um an√°lise mais abrangente. Mas certamente isso dever√° ser analisado com mais profundidade.

Uma comiss√£o foi criada para avaliar, criteriosamente, sob ASPECTOS TÉCNICOS e JUR√ćDICOS, sempre com respaldo no interesse p√ļblico, e verificar a legalidade de processos e projetos j√° aprovados e implementados. Nessa comiss√£o nomeada, v√°rios juristas e nenhum especialista em hidr√°ulica. O decreto fala em consultas técnicas se necess√°rio for. Certamente ser√°.

Voltando à quest√£o da √°gua tratada, para ter uma visualiza√ß√£o mais focada e direta, gasta-se hoje em média no Brasil, 153 litros de √°gua tratada por habitante, por dia. Isso significa ent√£o que, uma cidade como Salto, com 120 mil habitantes, gastaria perto 550 milh√Ķes de litros de √°gua tratada no m√™s. Se o SAAE Salto est√° faturando 700 milh√Ķes de litros de √°gua por m√™s, significa que estamos gastando 150 milh√Ķes de litros a mais e isso mostra desperd√≠cio. Se considerarmos ent√£o os 900 milh√Ķes de litros despejados na rede de distribui√ß√£o esse desperd√≠cio aumentar√° ainda mais. No Rio de Janeiro, que é a cidade que mais gasta no Brasil, esse valor chega a 200 litros por dia. Chegamos ent√£o à outra conclus√£o: gasta-se √°gua tratada à toa em Salto. Se invertermos essa conta, chegaremos a 195 litros de √°gua tratada gastos por dia para cada um dos saltenses. O que beira o absurdo.


Dessa forma, temos √°gua nas ETA"s Bela vista e Jo√£o Jabour, mas falta nos bairros. A bem da verdade, se o setor de distribui√ß√£o de √°gua tivesse sido projetado adequadamente de forma eficiente nesses anos anteriores, esse volume de √°gua desperdi√ßada - 150 mlh√Ķes de litros no m√™s, no m√≠nimo - daria para outros 30 mil habitantes. Ou seja, com um volume de 700 milh√Ķes de litros de √°gua tratada por m√™s, distribu√≠das de forma adequada e correta, abasteceria uma cidade de até 150 mil habitantes. Aqui, chegamos ent√£o à conclus√£o que hoje n√£o falta √°gua em Salto. O que faltou, na verdade, foram investimentos necess√°rios na distribui√ß√£o e na reserva√ß√£o nos √ļltimos 25 anos. Para tanto, h√° hoje a necessidade de investimentos pesados no setor.

Qual foi a √ļltima grande obra com recursos próprios em Salto?

N√£o houve e certamente n√£o haver√°. Todas as novas avenidas, novas escolas, novas creches, o parque linear, reformas de museus e pra√ßas, e até cl√≠nicas de Sa√ļde; todas foram feitas através de contrapartidas de empreendimentos ou recursos de emendas parlamentares. A prefeitura de Salto n√£o tem poder de investimento com um or√ßamento altamente comprometido com a folha de pagamento de seus servidores mais a aplica√ß√£o obrigatória de verbas na Sa√ļde e Educa√ß√£o. E, o que faz um governo sem esse poder de investimento? Nada...

Como nem a prefeitura e nem o SAAE Salto possuem caixa para investimento, um di√°logo franco e transparente com empreendedores imobili√°rios poderia ser bastante interessante no sentido de vislumbrar recursos para esse financiamento. A substitui√ß√£o de redes antigas e deterioradas de distribui√ß√£o de √°gua tratada é urgente. Poderia até ser feito como contrapartidas de novos empreendimentos, mas com direitos e deveres claros e transparentes. Tudo aberto para a fiscaliza√ß√£o da C√Ęmara de Vereadores.

Uma solu√ß√£o que est√° bem diante de nossos olhos, com uma gest√£o focada na solu√ß√£o do problema e de forma transparente. Tudo se resume ao di√°logo aberto e p√ļblico que poderia ser benéfico para todos. Sem isso, certamente n√£o chegaremos a nenhum denominador comum, principalmente com atitudes unilaterais e sem a participa√ß√£o de setores importantes que possam contribuir de forma efetiva e participativa nessa resolu√ß√£o.