A importância do resgate histórico da Vila da Barra

Foi ali que nasceram os Bonecões que animam o Carnaval da cidade. A tradição da vila operária sempre foi um ponto de ruptura na cultura saltense.

A importância do resgate histórico da Vila da Barra

A oportunidade de conhecer a história que a Vila da Barra representa é fundamental para a cultura da Estância Turística de Salto. Construída entre os anos 1911 e 1912, ainda é possível presenciar em alguns imóveis e calçadas, detalhes que ainda se mantém preservados. Em sua história existe um processo de dominação informal que se impunha à época. A Barra sempre foi o ponto de ruptura dessa série de regras e comportamentos.


Ao percorrer a tradicional vila, destacamos o Beco da Memória que leva a uma referência de como era o cotidiano de seus moradores. Ali eram contados os "causos", ali aconteciam as conversas, ali começavam as brincadeiras e ali era idealizado o Carnaval de outrora. Possivelmente foi na década de 1950, que começam a aparecer alegorias que ficaram marcadas na memória da população local, como o Boizinho e o Bonecão da Barra. No conturbado ano político de 1954, quando o operariado estava discutindo o salário mínimo, o carnaval de rua saltense - segundo a coluna Ser Saltense, do jornal O Liberal - foi original, possivelmente, pela presença do "Cordão da Barra", um irreverente bloco carnavalesco que saia do beco que levava ao Clube de Regatas Saltense e percorria as ruas do centro velho da cidade. Nele, a partir do início da década de 1950, surgiram os Bonecões da Barra.


Quanto ao "Cordão da Barra", afirmava o Jornal O Liberal de 07 de março de 1954, que "além da originalidade das figuras" coisa que há muito não se via em Salto, como boizinhos, índios, a "gaiolinha" de transporte e outras caracterizações individuais, notou-se a presença do que denominaram de Bonecos Gigantes. Mas, a grande atração daquele Carnaval, foi a mensagem que traziam no seu estandarte: "Muita Paz nos entendimentos do salário" , que expressava o pensamento dos operários saltenses da época.

A idéia de fazer um grupo de grandes bonecos para desfilar junto ao "Cordão da Barra", partiu de membros de uma antiga família saltense, os "Jorge". Contudo, foi posta em prática por pelo morador da Barra, Álvaro Ribeiro, proprietário de uma carpintaria que funcionava num galpão aos fundos do antigo Hotel Brasil, cuja fachada dava para o beco (hoje rua Marcechal Deodoro).


No início, Álvaro teve como seus auxiliares os vizinhos Vicente Girardi, Wilson Cazzamatta e Pedro Alves - este tradicionalmente conhecido na Barra como "Cascudo". Conforme a tradição foi se consolidando, vários outros cidadãos se tornaram incentivadores desse trabalho como Manoel Dantas, Mário Effori, Jesuíno Ruy, Josias Costa Pinto e Pilzio Di Lelli.

Os primeiros Bonecões não se pareciam com nenhuma pessoa em especial. Como diz a sra. Mônica Pereira Martins, "o Bonecão não tinha personagem como hoje", eles eram a "criação da invenção deles", ou seja, pintavam um rosto engraçado ou então, outro rosto que pudesse provocar alguma reação na criançada. Os Bonecões, depois de desfilarem no carnaval, eram guardados pendurados na carpintaria do Álvaro, que os reformava e dava outras feições para que pudessem participar do próximo carnaval.

Álvaro Ribeiro faleceu em meados de 1990. Durante 30 anos, de maneira ininterrupta, dedicou-se a "fabricar" os bonecões, nos meses que antecediam o carnaval. No carnaval de 1991, o primeiro após a morte de Álvaro Ribeiro, seu filho Francisco Ribeiro - popularmente conhecido por "Tico Boca" - também já falecido - assumiu tradição de continuar a criar bonecões para o desfile de rua, o que perdurou por algum tempo.

Era intenção de "Tico Boca", descendente do precursor dos bonecões, perpetuar essa tradição, iniciada por seu pai, na Vila da Barra. Hoje, a "fabricação" dos bonecos gigantes é mantida por iniciativa da Secretaria Municipal da Cultura, desde 2005, que contrata artistas plásticos em oficinas que ensinam a para criar os bonecões. Desde 2005 até hoje, nenhum bonecão foi feito em homenagem aos seus criadores, um detalhe que poseria se resgatado pelos atuais gestores da cultura.

Outro ponto importante seria que a arte de "produzir" os novos bonecões, a cada Carnaval, voltasse novamente à Vila da Barra. Afinal, pois foi exatamente lá, no início da rua Marechal Deodoro, que essa tradição nasceu.