Afogado, um delicioso ensopado que é patrimônio histórico

Um prato de origem ainda incerta, entre a influência tropeira misturada a dos cozidos lusitanos, é o símbolo de São Luiz do Paraitinga.

Afogado, um delicioso ensopado que é patrimônio histórico

O povo de São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, leva a Festa do Divino Espírito Santo muito a sério. Passados exatos 40 dias da Páscoa, a folia começa. Rituais cristãos e pagãos se alternam por dez dias, atraindo turistas, gente da cidade e da roça. Tem reza, procissão, maracatu, congada, novena e comilança. Aqui entra o Afogado, prato culinário de grande importância no hábito alimentar paraibunense, considerado patrimônio histórico cultural de Paraibuna, por meio de decreto municipal 2061/2005.

Os primeiros registros do Afogado datam do século XIX e sua origem está ligada a um costume desta época. Segundo relatos e estudos, era costume dos proprietários de fazenda ao matarem uma vaca ou boi, dar aos empregados e escravos as partes mais duras do animal. Estas peças eram cortadas em pedaços e colocadas em grandes panelas, onde eram cozidos apenas com sal e água, por toda a noite. Acredita-se que daí, surgiu-se o nome "afogado"; ou seja, pelo fato da carne passar longo período "afogada" cozinhando para amolecer.

A celebração é uma herança portuguesa, mas o ponto alto do evento leva às ruas um prato de origem ainda incerta, entre a influência tropeira misturada a dos cozidos lusitanos: o Afogado, ensopado à base de carne bovina e batata, distribuído gratuitamente, como manda a tradição, desde o século XIX, em duas ocasiões durante os festejos; na noite do primeiro sábado e no almoço do sábado seguinte.


Uma família é eleita pelos moradores para ser a festeira, ela ao longo do ano, percorre a vizinhança em busca de donativos - de dinheiro a pacotes de arroz, cada um dá o que pode. "Ainda se crê - principalmente na zona rural - na importância da doação como prenda ao Divino, para colher bons frutos na plantação", afirma o historiador João Rafael Coelho Cursino dos Santos, em sua tese de mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. "Muitos que deram a prenda ao Divino enxergam, na comida que recebem gratuitamente, uma resposta direta à sua fé", explica o historiador.

O preparo do Afogado sempre coube aos homens - e nunca primou pelo seu refinamento. Em tachos enormes, sobre fogueiras rodeadas com tijolos, os voluntários vão jogando os cortes de carne bovina, picada grosseiramente, junto com muito alho, cebola, cheiro verde, batata e água. Dos tachos, o ensopado vai para panelões menores, para que as mulheres se encarreguem da finalização - e um foguetório anuncia que está na mesa, ou melhor, no balcão. "Antigamente, até enxada usavam para mexer", conta a chef Heloísa Bacellar, do restaurante Lá da Venda (São Paulo). Ex-moradora da cidade, ela cresceu participando da festança.


"Eu e meu irmão saíamos a cavalo, levando prato e colher na mochila.O sujeito tacava o afogado no prato com uma concha enorme, ao lado tinha arroz e farinha de mandioca. Depois, a gente sentava na beira do rio para comer" afirma Heloisa. No menu do restaurante Lá da Venda (Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041 - Vila Olímpia) desde sua inauguração, o Afogado sempre fez sucesso - de prato de fim de semana, acabou virando pedido de todo dia (R$ 34 para um, R$ 62 para dois). Feito com maminha cozida com batatas, é servido com arroz, farinha de mandioca crua, banana nanica assada e molho caseiro de pimenta. "Na hora de comer, o melhor é ir misturando a farinha com o caldo, para formar um pirãozinho", finaliza a chef.


Em outras cidades paulistas, também é possível encontrar o afogado nas quermesses na Festa do Divino. A farta distribuição gratuita, no entanto, é tradição única de São Luiz do Paraitinga. A fila que se forma diante do Mercado Municipal é grande, mas ninguém reclama.

O Afogado é divino. Tradicionalmente divino!

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A receita:

Ingredientes:

• 1 xícara de café azeite extra virgem

• 1kg de carne bovina (acém)

• 1/2 cabeça de alho

• 2 cebolas médias

• 1kg de tomate

• 1 unidade de pimentão vermelho

• 1 unidade de pimentão amarelo

• 150g de jiló

• 1 maço de salsinha

• 5 folhas de manjericão

• 3 folhas de louro

• 4 batatas grandes

• Pimenta do reino

• Sal

Modo de preparo:

1. Numa panela de ferro grande, aqueça o azeite, a os pedaços decarne bovina (acém, paleta ou maminha), refogue bem até dourar por aproximadamente 30 minutos.

2. Adicione o alho picado, o tomate picado, as cebolas picadas, e os pimentões também picados, o jiló e o talos de salsão picado, a salsinha, pimenta do reino e sal a gosto e por fim as folhas de manjericão e de louro.

3. Acrescente água, deixe cozinhar até a carne ficar macia

4. Acrescente as batatas e deixe cozinhar até que elas fiquem ao ponto.