Por que o Estado ainda não conseguiu recuperar o rio Tietê?

Viver ao lado do rio pode até ter seu charme, mas respirar o odor que se tornou caraterístico do rio Tietê não é algo agradável.

Por que o Estado ainda não conseguiu recuperar o rio Tietê?

A cena chega a ser corriqueira para quem acompanha o dia a dia da cidade, mas cada vez que acontece impressiona e causa um sentimento de tristeza pela situação de um dos mais importantes rios do Brasil. Nesta semana, mais uma vez Salto foi destaque na mídia nacional pela espuma que tomou conta do trecho do Rio Tietê que é o cartão postal da cidade. A espuma pode ser vista em abundância.

"A principal dificuldade da despoluição é que são 39 municípios envolvidos e há uma notória falta de comprometimento dos prefeitos com o plano de uso e ocupação do solo", diz José Carlos Mierzwa, professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica, Universidade de São Paulo.

"Muitas pessoas têm uma ideia equivocada de que limpar o rio é pegar a água ali que está suja e tratá-la. Isso não funciona", afirma Mierzwa. Ele ainda explica que para limpar um rio, basicamente é parar de despejar poluentes em suas águas. "Se você manejar corretamente o esgoto, o que está ali vai embora e o rio se 'limpa sozinho' em alguns anos "completa.

A maior parte dos detritos que vão hoje para o Tietê são de origem doméstica. Na Grande São Paulo, uma macro região com 22 milhões de habitantes, segundo a SABESP, 87% do esgoto doméstico é coletado mas apenas 59% desse total é tratado. "41% do esgoto não receber nenhum tratamento é um volume muito grande jogado sem tratamento no rio Tietê", afirma o professor.

O uso do solo:

Assentamentos irregulares é um outro fator crucial quando se fala sobre como a ocupação do solo prejudica o curso d'água, mas não é o único. A ocupação na beira de rios e córregos é comum na metrópole toda - as próprias marginais Pinheiros e Tietê impermeabilizaram uma área de várzea que deveria ser reservada para o transbordamento natural do rio. Há muitos bairros regulares - alguns até de alto padrão - onde existe a captação do esgoto, mas este nunca chega às estações de tratamento.

O despejo de esgoto in natura direto no rio pela própria Sabesp levou o Ministério Público de São Paulo a entrar com uma ação contra a empresa, citando a contaminação da bacia do Tietê e das represas Billings e Guarapiranga.

Falsas promessas também predominam:

Em 1993, o governo de Antônio Fleury Filho prometeu a limpeza para 2005. Em 2004, o então secretário de recursos hídricos afirmou que o rio teria peixes até 2010. Em 2012, o governador Geraldo Alckmin disse que a cidade poderia ter 94% do esgoto coletado até 2015. Em 2014, ele prometeu a despoluição do rio até 2019. Saneamento não é e nunca foi prioridade eleitoral no Brasil. Nem saneamento nem água. Temos a cultura de uma falsa ideia de abundância. Mas tudo fica apenas no papel.

O que tem no rio Tietê?

Há três principais contaminantes no rio hoje. O esgoto doméstico é em maior parte, já que as regulações sobre dejetos industriais obrigaram as indústrias a devolver na rede coletora esgoto tratado. Mas existe ainda um residual industrial. A quantidade é pequena, o problema é o tipo de material que esse esgoto pode conter. Sua origem vem de empreendimentos que burlam o regulamento ou de pequenas manufaturas, como fábrica de bijuterias de fundo de quintal. A cada década temos um novo vilão. Nos anos 90 havia muito despejo industrial. Agora o vilão é esgoto doméstico, responsabilidade do poder público. Quando isso for resolvido, teremos que lutar para limpar os tóxicos farmacológicos.


Há também muita sujeira que está nas ruas e que é levada pela chuva para os córregos ou para a rede pluvial, que desemboca no rio Tietê. Isso inclui fuligem de carros, bitucas de cigarro, lixo que as pessoas jogam nas ruas, cocô de animais e água com detergente da lavagem de quintais, entre outros. Todo esses lixo e resíduos acabam sendo levado para as represas de Santana do Parnaíba (Edgar de Souza) e PCH Pirapora (Pirapora do Bom Jesua) gerando o assoreamento por acúmulo de lixo, entulho e outros detritos. Nas épocas de chuvas intensas, o extrator de fundo dessas represas são acionados e toda essa lama tóxica é despejada rio abaixo. A isso se soma o desmatamento da mata ciliar ao longo dos córregos da bacia, que causa erosão do solo e ida de ainda mais detritos para o curso d'água.

Existem soluções para essa falta de interesse?

Soluções são possíveis, mas só virão quando houver mudanças culturais em relação aos recursos naturais, uma maior integração entre as instâncias competentes, vontade política e a recuperação das águas do rio Tietê for um projeto de Estado. Uma delas é monetizar o processo: incluir o Saneamento no ciclo econômico. Infelizmente, enquanto o tratamento de esgoto da região metropolitana de São Paulo não estiver a contento, a Estância Turística de Salto e as demais cidades do Médio Tietê seguirão sendo prejudicadas.

É preciso responsabilizar os culpados. Você gerou resíduos então você paga. O valor dessas multas poderia ser usado inclusive para compensar quem é prejudicado.