Passeio no Trem Republicano, o que ninguém contou.

Passeio no Trem Republicano, o que ninguém contou.

Realizar o passeio do trem deveria ser algo meio mágico. A proposta é esta, já que a locomotiva por si só tem uma magia em seu entorno que mexe com a emoção do conceito de voltar ao passado ou ainda de fazer o viajante-turista sonhar. Não é isto que se tem no "Trem Republicano". O fato de o percurso ser curto - 7,6 km - faz com que a velocidade seja consideravelmente diminuída. Os trilhos ainda em fase de "ajustes" por assim dizer, causa um barulho estridente e incômodo como se fosse um atrito entre as rodas e o trilho, principalmente nas curvas, com isso via-se convidados nitidamente incomodados. O percurso, não levou mais que 40 minutos.

A proposta do sonho deveria começar ao chegar nas estações, Salto e Itu, cada qual com a sua. Neste item, estamos a frente. Nossa estação é bem mais atrativa, porém, totalmente vazia. Ali provavelmente se instalará um restaurante e um museu... Etapas do futuro que no contexto do projeto, deveriam ser fundamentais agora no presente, porém, estão ausentes. Estamos acostumados a obras inacabadas. Itu aproveitou-se de uma estrutura de Secretaria (Turismo e Eventos) e apenas mudou algumas entradas. Porém ao lado, observa-se um horroroso e abandonado prédio, em cujo lado de fora, vê-se uma placa que indica onde funcionará - novamente no futuro - uma loja de souvenirs.

Embarcamos. Durante o trajeto vê-se muitas coisas e entre essas, é possível ver ganhar corpo a pressa para essa inauguração. Um muro de arrimo no trecho final de Itu, envergonha pelo jeito que está "acabado". Ao passar ao lado da Estação de Tratamento de Esgoto de Itu - uma suntuosa curva, fica uma questão de que, com o tempo de atraso que a obra teve, faltou boa vontade em se plantar árvores para criar uma barreira natural - tipo um cinturão verde em volta da estação - seria o mais lógico. Mas não, o passageiro turista é convidado pelo seu "guia" turístico - cada vagão tem o seu - a observar tanques de decantação e aeração de esgoto. Como se isso fosse a atração turística do percurso. Dormentes jogados e largados ao lado também fazem parte do atrativo.

Ainda em Itu, existe um local com água parada, onde o fedor realmente incomoda. Dos vagões, com exceção do "Anselmo Duarte" - cada vagão tem uma referência de personalidades das duas cidades - são simples. Um banco de couro, é a única diferença dentro da estrutura em alumínio, o que ajuda ainda mais a não atingir a ideia de sonho de volta às origens. Chama a atenção que o caminho do trem em algum momento passa ao lado, sim ao lado, dos trilhos da Rumo Logística, e se der sorte, verá o gigante da logística parado para aguardar o Trem Republicano passar - uma questão de segurança, mas que deveria ser trabalhado no imaginário como reverência a história.

O primeiro e o último trecho do percurso, passa-se muito perto de casas singelas e ocupações ilegais de terra, o que não é nada interessante ao turista que se propõe a visitar. O trecho mais belo é quando os vagões passam pela antiga "ponte de ferro" sobre o Rio Tietê - e novamente vale destacar que, se não for um apaixonado pelo rio e sua história, onde até a imundice que o mata nos atrai, uma interrogação surgirá no passageiro-turista, pois em momento algum a história do valente Tietê é destacada pelos guias turísticos.

O final da viagem pode frustrar. Seja pelo valor ou ainda pelo pouco que se tem ao redor. Uma dica: se você fizer o percurso Itu-Salto e estiver sentado ao lado esquerdo, não coloque o braço para fora perto da Estação Ferroviária de Salto. Novamente a pressa ganha destaque ali, com um alambrado de proteção que deixa o vagão cerca de 30 cm desta cerca - ainda bem que o guia de cada vagão avisa ao microfone, o que novamente contribui para que a magia não aconteça.

Ou o trem ou o percurso deveriam ser incríveis. Tempo para isto e dinheiro para tanto, houve de sobra. Olhar para o Trem e ver que não é Maria Fumaça já não cria o encanto que esperamos e o percurso é todo mal cuidado, o que somente demonstra que houve apenas um ganhador nisso tudo e não foi o Turismo que envolve as cidades, mas sim o ego e o afago político de quem o imaginou.

Vale destacar que para este projeto havia um consórcio, o CITREM, criado especialmente para cuidar deste antigo sonho. A Serraverde Express é a menos culpada nisto tudo, já que ela obedece o que o projeto de concessão prevê. Em tempo, se a concessão descrevesse, tornasse obrigatória determinadas questões e características este Editorial não estaria sendo escrito. Podemos aplaudir a empresa, dona da concessão, que colocou o trem nos trilhos em seis meses, mas não dá para aplaudir o presidente do consórcio que visitou lugares e trens, como mostra as fotos Guararema e Campinas, principalmente com a alegação que era para se inspirar, mas cujo resultado dessa inspiração é o que temos.

Confira as fotos abaixo:


Prefeitos de Salto e Itu visitando outros trens turísticos em Campinas e Guararema.