Metade dos pacientes com câncer pelo SUS, fazem o tratamento fora de suas cidades

O estudo mostra entre 49% e 60% dos pacientes precisam deixar suas cidades para realizar esse tratamento.

Metade dos pacientes com câncer pelo SUS, fazem o tratamento fora de suas cidades

Um estudo publicado em dezembro de 2021 e divulgado nesta sexta-feira, 4, pela Funda√ß√£o Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que cerca de metade dos brasileiros em tratamento contra c√Ęncer no Sistema Único de Saúde (SUS) precisam deixar seus municípios de resid√™ncia para receber assist√™ncia especializada. Para dimensionar o acesso ao tratamento, foram analisados 12,7 milh√Ķes procedimentos cirúrgicos, radioter√°picos e quimioter√°picos ao longo de dois períodos: 2009/2010 e 2017/2018. O trabalho foi coordenado pela pesquisadora Bruna Fonseca, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz, e concluiu que n√£o houve melhora na compara√ß√£o dos dois períodos estudados.

O mapeamento mostrou que entre 49% e 60% dos pacientes precisam deixar suas cidades para realizar o tratamento e que os deslocamentos s√£o maiores nas regi√Ķes Norte e Centro-Oeste. Segundo o estudo, dependendo do tipo de tratamento, os pacientes dessas regi√Ķes chegam a percorrer uma média de 296 a 870 quilômetros, enquanto, no Sul e no Sudeste, as dist√Ęncias médias variam entre 90 e 134 quilômetros. Os pesquisadores da Fiocruz destacam que os polos de atendimento est√£o concentrados nas regi√Ķes Nordeste e Sudeste. No Amap√° e em Roraima, a maioria dos pacientes que necessitam de tratamento radioter√°pico precisou percorrer uma média de mais de 2 mil quilômetros para encontr√°-lo.

Ainda que o Norte do Brasil tenha uma densidade populacional menor, a possibilidade de estabelecer novos centros de tratamento de c√Ęncer na regi√£o, sem dúvida, melhoraria o acesso de uma popula√ß√£o que vive nos estados do Acre, Amazonas, Amap√° e Roraima, onde pacientes com c√Ęncer precisam viajar mais de 1 mil quilômetros para receber diferentes tipos de tratamento, diz o estudo.

O levantamento mostra que a cidade de Barretos, em S√£o Paulo, foi o principal pólo de atra√ß√£o para todos os tipos de tratamento ao longo do tempo. Segundo o estudo, 95% dos pacientes que fazem cirurgia, radioterapia ou quimioterapia no município s√£o de outras cidades. Em entrevista à Ag√™ncia Fiocruz de Notícias, Bruna Fonseca ressaltou que é preciso entender também que aspectos podem estar envolvidos na percep√ß√£o dos pacientes sobre os locais de tratamento, como a estrutura do lugar, anseios pessoais e o tipo de acolhimento oferecido. "H√° a percep√ß√£o popular do que é refer√™ncia no tratamento de c√Ęncer, o que faz com que os pacientes se desloquem, independentemente das dist√Ęncias e do planejado nas políticas de saúde". O estudo cita trabalhos anteriores que apontam que pacientes que precisam se deslocar para o tratamento de c√Ęncer relatam diversas dificuldades, como fadiga, longos períodos de espera para retornar para casa, falta de alimenta√ß√£o adequada, falta de dinheiro para a viagem e interrup√ß√Ķes contínuas de suas atividades rotineiras.

Como alguns tratamentos requerem visitas frequentes aos centros de assist√™ncia especializada, a pesquisa cita que estudos j√° indicaram que viagens longas para realizar radioterapia est√£o ligadas a um aumento no risco de mastectomia nos casos de c√Ęncer de mama e a uma menor probabilidade de uso de radioterapia entre pacientes com c√Ęncer em órg√£os como reto, pulm√£o, ov√°rio e próstata.